Como políticos sem escrúpulos em Portugal se prestam

a trabalhos de spin doctors para governantes africanos duvidosos

Por  Alberto Castro

Opinião 23 de Outubro de 2014 Vitrina Um artigo de opinião de José Ribeiro e Castro na edição online do diário luso ''Público'' no passado dia 10 de Outubro, vésperas de eleições em São Tomé e Príncipe, com o título ''São Tomé, à porta do futuro'' exemplifica bem a prática de legitimar e promover a imagem de governantes africanos duvidosos.

Comum na política ocidental, o trabalho de spin doctor (especialista em relações públicas e comunicação política capaz de manipular a opinião pública) tornou-se numa grande fonte de rendimentos para vários políticos e também jornalistas, autênticos mercenários de cifrões guiados por cinismos e hipocrisias a que convenientemente chamam realpolitik, por eles feitas no seu pior sentido: o da política sem ética.

 Um claro exemplo de spin doctor é Lanny Davis, advogado, político, consultor, lobista e comentador de televisão que foi porta-voz da administração Clinton. Entre a lista de clientes cuja imagem ele ajudou a promover contam-se a ditadura de Obiang na Guiné Equatorial e a oligarquia dos apoiantes do golpe de estado que em 2009 derrubou Manuel Zelaya, nas Honduras.

 Ribeiro e Castro foi um dos quatro políticos portugueses que, fora do quadro de observadores da UE e da CPLP, acompanhou Patrice Trovoada, o candidato que volta ao cargo de primeiro-ministro em São Tomé e Príncipe numa altura de plena campanha eleitoral. De acordo com o África Monitor, AM, a presença de quatro deputados portugueses, entre eles Ribeiro e Castro, na comitiva de regresso de Trovoada à STP, teve como propósito o tentar dissuadir, por meio de sua presença, eventuais ''procedimentos'' das autoridades contra o ex-novo primeiro-ministro. Os referidos ''procedimentos'' relacionam-se com suspeitas de corrupção e branqueamento de capitais que pesam contra o dirigente santomense enquanto primeiro-ministro numa anterior legislatura.

 Curisoso é que a viagem em jatinho particular (a noticia não informa quem a custeou) teve escala em Luanda onde Trovada se encontrou, segundo a AM, com figuras fortes do regime como o vice-presidente Manuel Vicente e o tido como todo poderoso ministro de Estado e chefe da Casa Militar da Presidência da República, general Hélder Vieira Dias ''Kopelipa'', com o objetivo de vincar a importância que atribui a Angola como parceiro.

 Ora, qualquer observador minimamente atento à politica em Portugal e nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) sabe perfeitamente que Ribeiro e Castro sempre foi um apoiante aberto da UNITA de Jonas Savimbi e que, tal como o seu correligionário Paulo Portas, mudou completamente de opinião quando Savimbi desapareceu de cena e, com ele, provavelmente a fonte que sustentava o lobby em favor do movimento do Galo Negro em Lisboa. Passaram a tecer rasgados elogios ao governo angolano e ao presidente José Eduardo dos Santos, a quem Portas qualificou como ''um dos estadistas de África  mais respeitado e experimentado.''

 Quando o jornalista e ativista Rafael Marques acusou Dos Santos de apadrinhar negócios ilícitos e disse de Portugal que ''é um país subserviente em relação ao regime de Luanda'', Ribeiro e Castro, em entrevista à TSF, reagiu em defesa do governo angolano dizendo: ''Por um lado, as pessoas queixam-se que não há Democracia mas, por outro lado, a própria prática dessas críticas de uma forma aberta é sinal que existe liberdade de expressão e do próprio debate democrático''.

 Quanto aos Trovoada, existem rumores de que em determinada altura o governo do MPLA não via com bons olhos o pai Miguel e o filho Patrice, bem como o ex-presidente Fradique de Menezes, por estes manifestarem em privado palavras pouco simpáticas para com Angola e nutrirem alguma simpatia pela UNITA.

 Com o cheiro a petróleo nas ilhas fica agora a suspeita de que não foi inocente a estratégia montada com a criação da STPtv, um projeto de televisão online da Companhia de Ideias, a principal produtora, via RTP África, de conteúdos para os países africanos lusófonos.  Oficialmente lançado em Novembro de 2013 e tendo as ilhas prodigiosas como foco principal, a STPtv conta na sua grelha de programação com um segmento semanal ancorado por Abílio Neto (analista e crítico feroz da política nas ilhas no programa ''Debate Africano'' da RDP África), tendo Patrice Trovoada como comentador residente. Ribeiro e Castro foi ele mesmo um dos convidados para falar das relações de Portugal com os PALOP. Acessando as emissões do canal durante o período de campanha eleitoral em STP, nota-se uma inequívoca cobertura do mesmo em apoio à candidatura da Acção Democrática Independente (ADI) de Patrice Trovoada.

 Esses desenvolvimentos mostram que são fundamentadas algumas das críticas mais viscerais que surgem das capitais africanas lusófonas apontando no sentido de Lisboa como um centro de conspirações por excelência contra os PALOP. E de grandes negociatas também, com empresários, políticos e advogados corruptos disputando sem escrúpulos a sua parte nas chorudas ''gorjetas'' proporcionadas por seus pares africanos não menos corruptos.

 Salvo valentes e honrosas exceções, tudo isso acontece perante o capitular de uma imprensa e de uma justiça, ou coniventes ou amordaçadas e chantageadas aos interesses do grande capital e a ditos interesses superiores do Estado. O Jornal de Angola volta e meia pincela umas linhas contra o que etiqueta, com alguma razão, de elites ignorantes e corruptas de Lisboa (nunca fala das suas) e logo desencadeia um tsunami político em Portugal. Por um lado desperta nacionalismos bacocos indignados com lições de moral vindos da antiga colónia.  Por outro, lobistas e spin doctors de plantão ao serviço de Luanda logo surgem frenéticos, coagindo a imprensa e ajustiça de cumprirem os seus papéis, mesmo que nem sempre da melhor forma.

 Voltando ao Ribeiro e Castro, advogado e político do CDS-PP, partido que sempre esteve na linha da frente do apoio a UNITA de Jonas Savimbi e cujos dirigentes quando hoje desembarcam em Luanda fogem dela como o diabo foge da cruz com medo de desagradar ao governo de Angola. Ele reconhece no seu artigo de opinião que apesar de tudo, STP  ''beneficia do privilégio da condição insular, surgindo num honroso 12.º lugar no Índice Ibrahim no total de 52 países africanos''.

 Ora bolas! (como se diz em bom português), como pode um país que ocupa um lugar honroso no índice de uma prestigiada instituição, na sua opinião, que tem ''um povo pacífico e uma sociedade com segurança'', entre outros elogios que faz a São Tomé e Príncipe, merecer tão grosseiro tratamento ingerencista? Só mesmo vindo de políticos que traem seus princípios e, prestando um desserviço a Portugal e à CPLP, agem como autênticos emissários coloniais encarregados de colocar ordem na colónia. Mais chocante, legitimados por um candidato cujo pai, Miguel Trovoada, foi uma figura proeminente da luta anticolonial.

Diz ainda Ribeiro e Castro que o então governo da ADI liderado por Patrice Trovoada foi derrubado em ''modo controverso'', para dizer o mínimo. Pois houve outros governos nas ilhas que foram depostos de forma igualmente controversa, para dizer o mínimo. Socorreram-se eles de ''emissários coloniais'' para os apoiar e impulsionar de volta ao poder da forma como fizeram deputados portugueses? Não me lembro de algum parlamentar em Portugal que se tenha prestado a tão vergonhoso papel. Parece pois que o cheiro a petróleo era inexistente na altura em que foram derrubados, ou não tão intenso como agora.

 Portugal no pós-25 de Abril viveu uma década de intensa instabilidade governativa com sucessivas quedas de governos até que a democracia se consolidasse e estabilizasse. Não me recordo de haver alguma interferência externa tão vergonhosa como essa feita à STP. Aconteceu porque as ilhas são, por enquanto, ainda demasiadas dependentes de Lisboa no que toca a vários programas assistencialistas. Não me parece que ousariam fazer o mesmo com outros PALOP, nem com o tido como estado falhado da Guiné-Bissau. Neste, Carlos Gomes Júnior foi deposto de uma forma violenta por golpe militar. Perseguido, teve seus direitos políticos e humanos violados. Não me lembro de ter sido acompanhado por deputados portugueses em jatinho particular no seu regresso à Bissau.

No Brasil mais de cinquenta mil, na maioria pobres, jovens e negros, morrem anualmente vitimadas pela intolerância racial, violência policial, tráfico de drogas, entre outras mazelas. Ativistas sociais, jornalistas e ambientalistas são frequentemente perseguidos e vários assassinados. Raramente se levantam vozes de políticos e mesmo da imprensa em Portugal a protestar ou a denunciar com veemência tão flagrantes e chocantes violações aos direitos humanos. Silêncio quase total num país que se vangloria de ter criado o enorme Brasil mas que se torna amnésico perante suas enormes responsabilidades históricas. Cego, surdo e mudo para com para com a tragédia de populações descendentes de um processo de escravização que resultou no maior movimento migratório forçado de toda a história da humanidade.

Para dizer o mínimo, os factos parecem demonstrar claramente um grande embuste em torno de todas as movimentações e desenvolvimentos em claro favor de um político de São Tome e Príncipe, sob o qual pesam suspeitas de corrupção e branqueamento de capitais.

*Jornalista freelance e colunista

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